Chegou o dia. O presidente Bene já falou: é Davi contra Golias.
Hoje coincidentemente também é 21 de abril. Tiradentes.
Joaquim José da Silva Xavier era dentista, tropeiro, militar de patente baixa. Num país onde o poder estava nas mãos de quem nasceu com ele, Tiradentes ousou imaginar algo diferente. Organizou, conspirou, sonhou alto. Quando a Coroa descobriu, os outros da conjura negociaram, delataram, salvaram a própria pele.
Tiradentes ficou. Assumiu tudo. Foi enforcado numa praça pública no Rio de Janeiro, no dia 21 de abril de 1792, enquanto a multidão assistia.
Perdeu? Depende de como você conta a história.
Afinal, duzentos anos depois virou feriado nacional. O império que o enforcou não existe mais.
A história de Davi é mais antiga ainda. Pastor, caçula, o menino que levava marmita pro irmão no front enquanto os soldados adultos tremiam na frente de Golias. O rei Saul chegou a oferecer armadura. Davi experimentou, achou pesada demais, devolveu.
Entrou com o que tinha. Uma funda, cinco pedras, e a memória de que já tinha matado leão e urso com as próprias mãos quando ninguém estava olhando.
Golias não veio sozinho, claro. Veio com exército, veio com escudo, veio com o peso de uma reputação construída em cima de quem ele já tinha destruído antes.
Golias olhou pra Davi e riu.
A gente sabe o que aconteceu depois.
Hoje na Ressacada o Barra entra sem armadura. Sem escudo. Sem os 115 anos de história que o Corinthians carrega na camisa.
Mas o Corinthians também não vem sozinho.
Vem com uma das maiores torcidas do país — apaixonada, barulhenta, do tipo que não assiste de casa quando o time joga perto. Vem com a invasão que já é marca registrada: fiel que viaja, que ocupa setor, que faz o mandante se perguntar se está mesmo jogando em casa em qualquer estádio do Brasil. Vem com a mídia de um país continental atrás, que já escreveu a narrativa, já gravou o off, já tem o resultado provável na cabeça antes do apito inicial.
Num país do tamanho do Brasil, ser Corinthians é quase um estado de espírito nacional. A torcida está em todo lugar — na sua família, no seu trabalho, no seu grupo de WhatsApp.
Hoje ela vai estar na Ressacada também.
E ainda assim o Barra vai com a tarrafa. Jeito de pescador: paciência, timing, e na hora certa puxa a rede.
Tem uma coisa curiosa em times que carregam muita reputação. A camisa pesa, dizem. E às vezes pesa tanto que o jogador entra preocupado em não decepcionar, em não ser o culpado, em não ser lembrado como o cara que perdeu pra um time “como o Barra” numa terça-feira de abril na Ressacada, com mais de meia mídia do Brasil assistindo.
Esse medo não aparece na escalação. Mas aparece no campo.
O Barra entra com a leveza de quem está construindo história tijolo por tijolo, jogo por jogo, num clube que há poucos anos mal existia no imaginário do futebol catarinense. Quanto maior o gigante, mais bonita fica a história se a pedra acertar.
Davi ganhou porque Golias achou que já tinha vencido. Tiradentes perdeu a vida e ganhou a história. O futebol repete essa lição com uma frequência que devia envergonhar quem ainda apostaria diferente.
Vá à Ressacada. Leve a família, disfrute o momento e sobretudo: Cante desde o aquecimento — porque hoje a torcida importa mais do que qualquer dia.
Esse time já nos deu noites que a gente não esquece. Hoje pode ser mais uma.
Hoje, 21h30. Barra FC × Corinthians. Copa do Brasil. Em Florianópolis.
Vamo, vamo pescador. 🔵